Em mais uma atividade prática referente à disciplina de Propagação e Implantação de Vinhedos do curso de Tecnologia de Viticultura e Enologia do IFRS – Bento Gonçalves, foi realizada visita técnica ao produtor de mudas (viveirista) Ronaldo Regla.

União entre o porta enxerto (macho) e a variedade copa (fêmea)

Conforme apresentado pelo professor Marco Fogaça, as principais maneiras de se realizar a enxertia são a de campo, feita pelo próprio produtor rural para atender sua demanda de mudas, e a de mesa, em escala comercial, realizada por viveiristas profissionais.


Resumidamente, a enxertia é a união entre um porta enxerto, em geral de uva comum (americanas: Vitis labrusca, Vitis berlandieri, Vitis rupestris), que será a responsável pelo enraizamento e caule inferior, com a variedade principal ou copa (Vitis vinífera, europeias ou híbridas), a qual gerará os frutos para a venda de uvas de mesa ou para a elaboração de vinhos e espumantes finos. Utilizada na maioria das regiões vitícolas do mundo, os objetivos são:



·         meio de defesa contra a filoxera;

·         adaptação a determinadas condições climáticas;

·         adaptação a diferentes tipos de solo;

·         controle de pragas e doenças de solo;

·         maior desenvolvimento inicial das plantas, o que proporciona maiores colheitas nos primeiros anos de produção;

·         maior vigor geral das plantas, assegurando maior produtividade do vinhedo;

·         produção de cachos e bagas de maior tamanho, características de qualidade essenciais na produção de uvas de mesa.


O processo pode ser dividido em três etapas:

1) a produção de estacas;

2) a conservação e estratificação (ou forçagem) dos enxertos; e

3) o plantio no viveiro. Estas etapas interferem diretamente no pegamento dos enxertos.


O Viveirista Ronaldo Augusto Regla


Técnico agrícola aposentado da Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves – RS (foto dir.), possui vasta experiência na produção de porta enxertos, tendo sido responsável por diversos estudos e artigos, entre eles, A Produção de mudas de videira (Vitis spp.) por enxertia de mesa (abril 2007).


Por possuir uma propriedade no município de Cotiporã – RS, e dominar a técnica da enxertia, Ronaldo iniciou, há 20 anos, o plantio de matrizeiros com o intuito de produzir, comercialmente, mudas (porta enxerto + variedade principal) para atender ao mercado consumidor de videiras.


Os matrizeiros de porta enxerto e de gemas (variedade copa)


Ronaldo recebe o grupo de alunos do IFRS, conduzidos pelo professor Marco Fogaça, na entrada de sua propriedade, próximo ao matrizeiro de onde são retirados os sarmentos (estacas) de porta enxertos para a produção das mudas.


Como pode ser observado na figura 2, no momento as plantas estão somente com os esporões (braços derivados do caule central), pois os sarmentos (galhos secundários e terciários) foram podados ao final de abril e início de maio para serem processados como porta enxertos. Segundo Ronaldo, 90% dos porta enxertos[1] da empresa são da variedade Paulsen 1103 (híbrido Vitis berlandieri x Vitis rupestris), sendo os demais: 420 A , R110, SO4, R99 e híbridos de Vitis Rupestris. Ao total, divididos em duas áreas, a empresa possui 5.000 plantas produtoras de matrizes.


Assim como havia sido enfatizado pelo professor Marco Fogaça nas aulas teóricas, Ronaldo explica que o motivo de o Paulsen 1103 ser o porta enxerto mais solicitado pelos clientes, é a sua grande resistência à doença fusariose, provocada pelo fungo fusarium.



Para a produção das gemas das variedades copas, a empresa possui 50 tipos de cultivares em espaldeiras, divididas em uvas de mesa, para suco e para vinho. Com relação à esta grande diversidade, Ronaldo explica que se trata de uma das dificuldades deste tipo de trabalho, pois pode acontecer de se produzir mudas de uvas não desejadas pelo mercado em um determinado período, perdendo-se o que foi produzido, e consequentemente, gerando-se prejuízo nesta parte da produção.


Entretanto, Ronaldo enfatiza a viabilidade do seu negócio, por dois motivos.


i)             lado da oferta (viveirista): pela confiança repassada ao mercado da qualidade de seus produtos, com mudas que possuem alto índice de pega no campo, e, sobretudo, sãs, sem contaminação de fungos (de solo, de madeira, folhas e frutos) e vírus que comprometeriam o novo parreiral.


ii)            lado da demanda (clientes): o número insuficiente de produtores de porta enxerto competentes para atender a demanda do mercado produtor de uva, espaço que poderia ser preenchido pelos alunos do curso de Tecnologia em Viticultura e Enologia.



O galpão para o preparo das varas


Figura 3: preparo dos sarmentos para o processo de enxertia.

Ronaldo direciona o grupo de alunos a um pequeno galpão, no qual quatro profissionais cortam os sarmentos podados, para que fiquem dentro do padrão necessário à produção das mudas (32 a 33 cm).


A variedade que estava sendo preparada era de S04, sobre o qual Ronaldo cita a qualidade de também ser resistente à filoxera, assim como o Paulsen 1103. Ronaldo ressalta que nos últimos 20 anos que possui viveiros com o SO4, nunca houve a morte de uma planta por filoxera ou demais fungos de solo, o que comprova ser um bom porta enxerto, utilizado por produtores japoneses para o cultivo da uva de mesa Itália. O ponto negativo do SO4 seria o seu grande vigor, como havia ensinado o professor Fogaça em sala de aula.


Ronaldo explica que o SO4 tem uma boa capacidade de pega na enxertia de campo, mas muito baixa na enxertia de mesa. Forma-se um bom “calo”, uma boa “solda”, mas não se desenvolve após o plantio, fazendo com que o Paulsen seja o preferido dos viveiristas, pois além de resistente à fusariose, tem ótima capacidade de brotamento após a enxertia, além de ser popular entre os clientes. Fogaça concorda com esta avaliação, dizendo que havia verificado esta limitação do SO4 anteriormente.


Após serem preparados, os porta enxertos são destinados à câmara fria, evitando o resscamento do material, aonde ficarão até o momento da enxertia. Entretanto, antes de serem colocados na câmara fria, as estacas recebem um banho em solução de água e água sanitária (1:100), para higienização.


 

Produtos comercializados pelo viveirista


Ronaldo reforça a importância de se preocupar com a qualidade do solo que receberá os porta enxertos e mudas, pois caso haja contaminação por vírus ou fungos, o novo parreiral será contaminado. O ideal, segundo ele, seria a esterilização do solo, realizado na Embrapa, por exemplo, entretanto, esta prática não é comercialmente possível nos viveiros, havendo a necessidade de o responsável ter competência técnica para avaliar os solos que usará. O professor Marco Fogaça explica que solos mais profundos são sadios, devendo ser os escolhidos, pois os fungos e vírus atacam a superfície, aonde se encontram as raízes das plantas.


O processo de enxertia


Após o preparo dos sarmentos podados, as estacas são conduzidas à câmara fria, aonde ficarão armazenadas até o momento da enxertia. Ao serem retiradas da câmara fria, antes de enxertadas, a estaca (porta enxerto) e o sarmento (que contém a gema da variedade copa), devem ser reidratados por 24h, em uma solução de água e água sanitária (1:100).


Após este processo, o profissional fará a enxertia nas máquinas, no formato ômega, e esta muda será destinada à forçagem (formação do calo no local da enxertia) por um período de 14 dias em uma estufa aquecida a gás, à temperatura de 26 a 28°C.


Para facilitar a colagem e aumento do índice de pega (antes da forçagem), passa-se uma cêra com hormônio no local da enxertia, que favorecerá o crescimento das células entre o porta enxerto e o sarmento da gema. Ao longo deste período, a muda quebrará a cêra, formando o calo. Outro requisito para que a enxertia e o calo ocorram, é a igualdade entre o diâmetro do porta enxerto e do sarmento da variedade copa, ocorrendo o encaixe perfeito. Após a forçagem, no local do calo, é passada uma cêra ou uma fita japonesa para proteção contra o ataque de pragas e, sobretudo, contra a desidratação.


Caso não haja boa formação do calo a muda é descartada, pois não estará apta a ter uma brotação perfeita. De acordo com Ronaldo, o índice de sucesso de sua produção está em torno de 98%.



Em seguida as mudas são direcionadas aos copos para adquirem raízes e brotos (da variedade copa), estando prontas (em três meses) para serem destinadas ao campo para a formação de um novo parreiral.



Conclusão


O advento da técnica de enxertia de mesa foi fundamental para a ampliação sistemática dos parreirais de Vitis viníferas em todo o mundo, possibilitando maior produtividade e resistência às pragas que dizimaram plantações em séculos anteriores. No Brasil é uma atividade ainda pouco explorada, sendo fundamental que as entidades representativas do segmento vitivinícola gerem um debate com o intuito de valorização deste processo produtivo. O repasse destas técnicas a alunos do IFRS é de suma importância para a capacitação científica dos novos enólogos do Brasil.